segunda-feira, 10 de maio de 2010

Um show inesquecível?

Com uma divulgação de algumas semanas, aconteceu em 25 de abril o esperado show da “Nação Zumbi” no CCJ (Centro Cultural da Juventude) da cachoeirinha.
Enquanto esperávamos um evento inigualável na periferia da zona norte de Sampa o que vimos foi mesmo desrespeito de sempre. Às 14 horas uma enorme fila sem critérios se instalou e foi engordando em frente ao CCJ. Antes do inicio da distribuição dos ingressos várias viaturas chegaram com diversos policiais militares que, naquele momento, apenas observaram o que acontecia. Às 17 horas os ingressos foram distribuídos e o óbvio aconteceu: mais da metade do público presente ficou sem os bilhetes.
Enquanto aqueles que tinham ingressos formaram uma nova fila aguardando para entrar no centro cultural o público sem ingresso se aglomerou em frente à entrada principal reivindicando o direito de assistir o show que custou mais de R$ 15 mil aos bolsos dos cidadãos. Neste momento a polícia militar tomou a cena: enquanto fingia pedir calma às pessoas, que começavam a se irritar com a falta de soluções, aproveitaram para escolher o melhor ângulo e lançar o repetitivo spray de pimenta democraticamente, ao alcance de todos. A multidão se dispersou junto ao gás e quem estava na fila não sabia se se irritava, indignava, corria, tossia, respirava ou tentava agüentar firme e ser um dos 500 privilegiados numa região de mais de 300 mil habitantes.
Em seguida a policia militar colaborou com os organizadores do show e juntos agilizaram a entrada do público com ingresso, antes mesmo dos acessos de tosse cessarem. Ao adentrar o CCJ, algumas pessoas reclamaram a atitude da organização e o que ouviram foram justificativas sobre a necessidade daquele ato. Ouviram ainda que o CCJ sempre estava de portas abertas à comunidade e às iniciativas locais – claro que disseram isso num tom menos conciliador do que triunfante – mas esse diagnóstico raramente é verificado pelos usuários do espaço. Falamos isso de causa própria, pois não é novidade o descaso deste CCJ como nossas atividades.
Com o passar dos minutos o absurdo ficou ainda mais absurdo. A notícia que corria era que o show poderia ser cancelado em função do atraso, mas logo a banda entrou no palco e muitos dos que ainda pensavam naquilo que estava ocorrendo do lado de fora, logo esqueceram o que havia acontecido. O início das vibrações sonoras praticamente determinaram o fechamento dos portões. A cena era muito estranha, pois qualquer observador podia notar muitos espaços vazios no local da apresentação. A resposta para essa situação estava lá fora, muitas pessoas com os preciosos ingressos nas mãos foram impedidas de entrar. A expectativa de um público de 500 pessoas foi então frustrada.
Nossa intenção com a divulgação deste texto não é desmerecer a apresentação da Nação Zumbi. Pelo contrário, acreditamos serem necessários mais eventos com atrações como esta, representativa da cultura brasileira. No entanto, o que nos causa preocupação é a proposta de organização que atualmente se confunde com “favores”. “Façamos de qualquer jeito, o importante é que aconteça alguma coisa”, parece ter sido esse o pensamento que predominou na organização do evento.
E temos motivos para acreditar nisso. No caso particular do CCJ este pensamento parece incorporado em sua própria estrutura física. Assim, destacamos o anfiteatro que apesar de contar com amplo palco tem como personagem principal das peças apresentadas o desconforto físico e sonoro, pois qualquer ruído emitido de fora do espaço entra sem nenhum tipo de impedimento para dentro do espetáculo e, ainda, para que o expectador fique atento às cenas é necessário um verdadeiro malabarismo, uma vez que o posicionamento das precárias cadeiras da platéia nos trazem verdadeiros desafios e estão longe oferecer uma percepção inusitada.
Na biblioteca, que conta com instalações de grande qualidade, mas com um acervo reduzido e apenas há pouco tempo disponibilizado à população, a tranqüilidade nunca é convidada e o som dos outros espaços do CCJ é o principal freqüentador deste reduzido acervo.
Não podemos esquecer também – e talvez seja essa a origem de tantos problemas – que o atual Centro Cultural da Juventude se instalou em um prédio que estava abandonado e foi reaproveitado. Ou seja, originalmente não foi construído para abrigar um equipamento cultural.
Será que existem pontos positivos neste equipamento cultural? Obviamente que sim! Mas o que seriam eles senão o mínimo de dignidade que nosso suor em forma de impostos merece?
Por falar em dignidade é necessário reconhecer quando esta se sobressai em momentos adversos. Assim, ao final do show, uma das “colaboradoras” desculpou-se com o público presente pelas cenas de violência e despreparo que ocorreram naquela tarde. Apenas lamentamos que o público que tentou acompanhar o show do lado de fora do CCJ talvez não tenha a ouvido.
Por fim, destacamos que o Centro Cultural da Juventude é um espaço público, mantido pelo dinheiro dos impostos pagos pela população à Cidade de São Paulo. É, portanto, necessário que seja ocupado e caso não seja bem administrado a mesma população deve denunciar, interferir e exigir as mudanças necessárias. De certa forma é isso que fazemos aqui.








3 comentários:

Andres disse...

Andar no mundo livre, sem ter sociedade, já dizia Chico Science em "Um Passeio no Mundo Livre". Estive no evento mais nao consegui entrar. Esse sim é um show de maracatu de tiro certeiro.

Paulo Sérgio disse...

É triste, muito triste o desrespeito da organização do CCJ, que já algum tempo deixa falha, e a comunidade é quem paga.
Ela é que é taxada de baderneira, que é dispersada com borrachada, spray de pimenta na cara e tudo mais.
Até quando o desrespeito pra comunidade que vai atrás de cultura vai ser recebida dessa forma?

Maria Eunice de disse...

"Não podemos esquecer também – e talvez seja essa a origem de tantos problemas – que o atual Centro Cultural da Juventude se instalou em um prédio que estava abandonado e foi reaproveitado. Ou seja, originalmente não foi construído para abrigar um equipamento cultural"

Concordo - em termos - com essa fala, mas não podemos esquecer que não faz muito tempo nossa região não tinha nada de equipamento cultural (nem bom, nem ruim) e que a luta para o aproveitamento do prédio foi árdua (com a participação dessa que vos escreve).
O problema é que não se ouve a população para a melhora do espaço, não se ouve os interessados para a abertura real do CCJ para a comunidade.
Temos esse mesmo problema na CASA DE CULTURA FREGUESIA. Lutamos tanto pra tê-la e agora está lá às moscas. Me sinto igual aquele trabalhador da música do Zé Geraldo...ajudei a construir, mas agora não posso entrar...
É isso ...