segunda-feira, 5 de abril de 2010

REBELIÃO

Salve guerreiragem.

No dia 11 de março aconteceu uma rebelião dentro da Unidade de Internação da Fundação Casa, no bairro de Itaquera. Eu havia descidido por não colocar nenhum texto a esse respeito aqui na nossa página, mesmo frente as notícias vergonhosas que circularam nos noticiários sobre esse tema. Porém hoje, dia 05 de abril, novamente aconteceu uma rebelião dentro dessa mesma unidade, e novamente eu estava presente, e por esse motivo resolvi postar um breve texto que fiz na ocasião do dia 11 do mês passado, que infelizmente, alterando alguns detalhes, serve para descrever os acontecimentos de hoje.



São Paulo, 11 de março de 2010.

Fundação Casa, Unidade de Internação Itaquera (U.I. Itaquera), dia 11/03/2010.

Por volta das 11h00 funcionários da segurança entraram no pátio com uma escada, enquanto haviam por ali cerca de 30 adolescentes. Nesse momento alguns meninos tentaram se apossar dessa escada para tentar uma possível fuga. Frente à resistência dos funcionários se deu início um confronto entre esses e os adolescentes. Alguns internos começaram a agredir os funcionários com socos, chutes e cadeiradas o que prontamente gerou uma reação por parte dos seguranças que se utilizaram dos mesmos recursos, socos, chutes e cadeiradas.

Atualmente a U.I. Itaquera mantem em suas dependências 120 adolescentes, porém no momento em que se iniciou o conflito, cerca de no máximo 40 adolescentes se envolveram. Nesse momento os professores que estavam em aula, se retiraram sem nenhuma resistência por parte dos alunos no entanto dois educadores e uma funcionária da pedagogia se mantiveram dentro do pátio junto a um grupo de alunos que não estavam participando do conflito, visando garantir a integridade física dos mesmo os mantendo dentro da sala de aula, tanto os que estavam participando das oficinas, como outros que buscaram “abrigo” junto a esses dois educadores. Depois de mais ou menos 20 minutos do inicio da rebelião a polícia já estava no local e assim que lá chegou começo a jogar gás de pimenta dentro do pátio e das salas de aula, inclusive onde estavam os educadores, a funcionária da pedagogia e os adolescentes, mesmo tendo sido avisados por um dos educadores que ali haviam funcionários. Nesse momento a funcionaria da pedagogia que estava na sala de aula começa a ter problemas para respirar, pois como todos sabem gás de pimenta dificulta a respiração, então os dois educadores transferiram os alunos e a funcionaria para a sala ao lado e fecharam as janelas para evitar que novamente os policiais jogassem gás na sala. Alguns meninos tentaram socorrer a funcionária abanando com uma camiseta, porém já não era possível sua permanência dentro daquele espaço, então um dos educadores pediu a um garoto que garantisse a saída dessa funcionária em segurança, o que foi atendido prontamente e em menos de cinco minutos ela já estava fora do local de conflito.

Assim como esse grupo de adolescentes que estava junto aos educadores, também existiam mais dois grupos, um dentro do refeitório e um outro em uma sala no outro extremo do pátio, que também não se envolveram no conflito. Durante todo o período relatado o conflito continuava cada vez mais violento, alguns adolescentes já haviam subido para o telhado e a polícia lançava bombas de efeito moral na direção desses, sendo que algumas vieram a cair dentro do pátio. Após a saída da funcionária da pedagogia e com a saída da maioria dos funcionários da segurança, o que significava que o grupo de apoio a segurança da Fundação Casa (Choquinho), estava para entrar no pátio, os três grupos de adolescente que não haviam se envolvido no conflito se reuniram, acompanhados pelos dois educadores, em uma sala ao fundo do pátio a fim de “montar formação” como forma de demonstrar que eles não estavam envolvidos no conflito. Nesse momento os dois educadores se colocaram na frente dos garotos para sinalizar que ali havia funcionários e também para tentar garantir a integridade física dos mesmos, porém um dos últimos seguranças que ainda estava no pátio, disse aos educadores que a partir daquele momento se eles continuassem ali, estariam sem nenhuma proteção por parte da Fundação Casa e no mesmo momento um dos garotos pediu aos educadores que se retirassem porque quando o “choquinho” entrasse os educadores também correriam risco de serem atingidos por um tiro de borracha (calibre doze) ou até mesmo serem colocados como reféns pelos adolescentes envolvidos no conflito. Mas vale salientar que durante o período de conflito, dois ou três funcionários, se trancaram dentro da sala da coordenadeção de segurança, no entanto nenhum funcionário foi pego como refém pelos adolescentes. Após a saída dos dois educadores de dentro do pátio, eles se depararam com a presença de vários policiais de armas em punho atirando para dentro do pátio e lançando bombas de efeito moral no telhado, porém até aquele momento o choquinho ainda não havia chegado ao complexo e as atenções eram voltadas para um pequeno grupo de “internos” que estavam no telhado e que esporadicamente lançavam algumas pedras enquanto o grupo policial, fortemente armado, seguia com uma interminável ofensiva, lançando bombas de efeito moral e atirando para dentro do pátio com suas armas de calibre doze.


Vagner Souza


2 comentários:

Coletivo Cultural " Esperança Garcia" disse...

A violência e racismo que sofremos nesse país o absurdo e hiprocisia teimam em prevalecer. Não desista!!!!!
Mulheres, jovens, homens e crianças morrendo e sendo massacrados por um sistema que parece não ter fim. Cansa né?
Não esmoreça nem desista meu querido amigo e vamos continuar na luta com a energia e força dos nossos ancestrais.
Paz, saúde e boas energias pra nós!
Jú Balduino

Associação Cultural do Véio disse...

É MUITO DIFÍCIL E TRISTE DE FALAR, mais como um adolescente pode se recuperar, em um lugar que a solução se resume com violência, é aquele ditado violência gera violência, e conhecemos como é o sistema, ali dentro não é um mar de flores,o resgate está no entender e se colocar no lugar do proxímo, respeitar istimular a mente dos adolescente a fazer coisas construtivas criar, arte, música,esporte,educação mostrar que a vida deve ser aproveitada da melhor maneira possível, e todos podemos ser felizes....